segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Feliz 2009




Se depender de bons propósitos, nossa saúde no ano-novo será perfeita.É sempre assim: arrependidos dos descalabros alimentares e dos exageros alcoólicos cometidos durante a temporada de festas, todo início de ano juramos que, dali em diante, comeremos e beberemos com parcimônia e nos exercitaremos. Alguns dias depois, o sentimento de culpa se esvairá e a vida voltará à sua rotina glutônica e sedentária.Comemos mais do que as necessidades energéticas da vida moderna exigem, porque nosso cérebro foi moldado em época de penúria. A fome, flagelo ancestral de nossa espécie, selecionou entre nossos antepassados aqueles capazes de ingerir grandes quantidades de alimentos para enfrentar as temporadas de jejum forçado que se seguiam. São os genes que herdamos deles os responsáveis pela dificuldade de resistirmos à tentação dos doces e pela incapacidade de parar no fim do primeiro prato de feijoada.Nossa história evolutiva explica por que a fome é uma sensação tão irresistível quanto a sede. Seres humanos que, no passado, eram capazes de comer muito e armazenar o excesso de calorias sob a forma de tecido adiposo deixaram mais descendentes que lutam contra a balança em razão da fartura atual.A necessidade de economizar calorias preciosas no tempo das vacas magras é a razão do paradoxo que cerca a atividade física. Não apenas estamos cansados de saber que o exercício faz bem para o organismo, como sentimos grande bem-estar depois de praticá-lo. Por que, então, uma atividade reconhecidamente benéfica que, ainda por cima, traz prazer físico, é tão difícil de realizar?Só pode ser por uma razão: o exercício físico vai contra a natureza humana. No intervalo das refeições, nossos familiares do tempo das cavernas faziam exercício ou ficavam sentados para economizar energia? Alguém já viu uma onça no zoológico correndo para exercitar os músculos? Ou um chimpanzé fazendo ginástica? Bem-alimentado, o animal repousa, assim como nós que, depois do almoço de domingo, levantamos da mesa direto para nos refestelarmos no sofá.Esse é o ideal da espécie humana: da mesa farta para a poltrona macia.Mas, como vencer esses impulsos ancestrais, diante dos avanços da culinária e do conforto que nos poupa até de sacrifícios insignificantes, como girar a manivela para fechar o vidro do carro ou andar até a TV para mudar o canal?Apesar de reconhecer que a biodiversidade humana é suficientemente complexa para não admitir regras úteis para todos, vou tomar a liberdade de fazer duas recomendações:1) Se você está com excesso de peso, olhe para os alimentos da mesma maneira com que encara a bebida: é bom, mas em excesso prejudica. Fuja da tentação, levante da mesa imediatamente depois de esvaziar o prato. O centro da saciedade demora alguns minutos para ser ativado (a ponto de inibir o impulso da fome). Se você esperar atingir a saciedade completa, pode ter certeza de que comeu mais do que devia.As necessidades energéticas do organismo diminuem com a idade. Não sejamos ridículos de, na maturidade, atacar a comida com a volúpia dos 15 anos.Não vamos esquecer que nosso cérebro processa a perda de gordura como uma ameaça à sobrevivência e toma uma série de medidas drásticas para fazer o corpo voltar ao maior peso já alcançado.2) Se você é daquelas pessoas que esperam sentir disposição para praticar exercício, não perca tempo; ela jamais virá. Pode ser que dê o ar da graça num domingo, na praia, num sítio, mas, no dia-a-dia, esqueça: a natureza humana é sedentária. Para fazer exercício com regularidade, é preciso disciplina militar: acordar mais cedo, cumprir horários, não depender dos outros.Se você é daquelas pessoas chegadas à autocomiseração ("pobre de mim, onde vou achar tempo"), saiba que isso é problema seu. Ou você acha que alguém o resolverá por você? Que alguém lhe dirá: como recompensa por você ser mãe dedicada ou pai responsável, exemplar no trabalho, vamos lhe reservar uma hora por dia para atividade física? Se você tiver mesmo tais qualidades, é mais provável que lhe roubem uma hora a mais de seu tempo já exíguo.Para quem leva uma vida dura, que realmente não deixa espaço para o exercício metódico, regular, a única saída é incorporá-lo às atividades diárias. Pare o carro mais longe, vá a pé. Em vez de pedir para os outros, levante da cadeira e vá buscar. Carregue peso. Sempre existe uma escadaria por perto, e subir escadas é um exercício maravilhoso.
http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/natal.asp

A imposição sexual


Desejos sexuais percorrem circuitos de neurônios que fogem do controle consciente.Nos anos 1960, época em que os homossexuais ousaram emergir das sombras nos grandes centros urbanos, os estudiosos, surpresos com tantos homens e mulheres que assumiam a homossexualidade publicamente, imaginavam que a questão teria caráter puramente comportamental. O termo "orientação sexual" se tornou tão generalizado que se infiltrou nos textos médicos, nos livros de psicologia e acabou aceito com orgulho pela própria cultura gay.Essa visão, no entanto, jamais explicou a existência da homossexualidade em todas as culturas conhecidas, nem a precocidade de sua instalação definitiva em meninos e meninas muito antes do que costumamos chamar de idade da razão, nem o fato de que a maioria da população é heterossexual sem ter sequer cogitado a opção contrária.Insatisfeitos com essa interpretação comportamental e entusiasmados com os avanços obtidos pelo Projeto Genoma a partir dos anos 1990, os geneticistas têm procurado identificar a influência dos genes envolvidos na orientação sexual.Em 2005, o debate dos genes versus ambiente ganhou dimensões inesperadas com a publicação na revista "Cell" de uma pesquisa impecavelmente conduzida na Academia Austríaca de Ciências, com drosófilas, as mosquinhas que sobrevoam bananas maduras, modelos de tantos estudos genéticos.Há vários anos foi descrita nas drosófilas a existência de um gene-mestre (fru), capaz de orquestrar um grupo de genes encarregado de coordenar um circuito de 60 neurônios, responsável pela condução dos estímulos sexuais masculinos ou femininos. Basta lesar um desses neurônios para que o inseto não consiga se acasalar adequadamente.O ato sexual nas drosófilas obedece a um ritual bem conhecido: quando se aproxima da fêmea, o macho encosta a perna na dela, toca uma música com as asas para enternecê-la, lambe o sexo da fêmea quando a música termina e, somente depois, copula com ela durante 20 minutos, rigorosamente.No trabalho citado, os austríacos transplantaram a versão masculina do gene fru das drosófilas machos para um grupo de fêmeas. E, num experimento paralelo, a versão feminina do mesmo gene para um grupo de machos.Para espanto geral, as fêmeas que receberam a versão masculina de fru, quando levadas à presença de outra fêmea, adotavam o ritual masculino: tocavam a perna da outra, usavam as asas para a música sedutora e tudo mais. Quando colocadas em ambientes com moscas de ambos os sexos, elas perseguiam sexualmente outras fêmeas sem dar a mínima para o sexo oposto.Ao contrário, quando a versão feminina de fru foi transplantada para os machos, eles se tornaram mais passivos, desinteressados pelas fêmeas e atraídos por outros machos.No final os autores concluíram: "Os dados mostram que comportamentos instintivos podem ser especificados por programas genéticos da mesma forma que o desenvolvimento morfológico de um órgão ou de um nariz".Há muito sabemos que comportamentos complexos em homens e outros animais costumam acontecer sob a influência direta ou indireta de diversos genes. Geralmente são tantos que nos referimos a eles como "constelações de genes". Por isso, a pesquisa dos austríacos causou comoção nos meios científicos e na imprensa leiga (foi matéria de primeira página no jornal Folha de São Paulo e do "New York Times", por exemplo).Gero Miesenboeck, professor de biologia celular em Yale, comentou os achados com as seguintes palavras: "Essa é uma demonstração soberba. Pela primeira vez fica demonstrado que um único gene é capaz de controlar um comportamento de alta complexidade. É intrigante a possibilidade de que outras características comportamentais, como reagir com violência às frustrações, fugir quando assustado ou rir quando alegre, podem estar programadas nos cérebros humanos como produtos da herança genética".Embora não haja certeza de que em mulheres e homens exista um gene equivalente ao gene fru da drosófila, é preciso lembrar que a genética humana sempre se valeu das drosófilas para elucidar nossos mecanismos básicos.É muito provável que o comportamento sexual esteja sob o comando do que chamamos de programa genético aberto.Programas abertos são aqueles em que o catálogo de instruções impresso no DNA admite, dentro de certos limites, a inclusão de informações colhidas por aprendizado, condicionamento ou outras experiências. Por exemplo, se vedarmos o olho esquerdo de uma criança ao nascer, ao retirarmos a venda três meses mais tarde ela terá perdido definitivamente a visão desse olho, embora enxergue normalmente com o outro. O programa genético responsável pela distribuição dos neurônios da retina no cérebro precisa interagir com a luz para incorporar as informações necessárias ao desenvolvimento pleno da visão.Na biologia moderna, o espaço para o velho debate genes versus ambiente está cada vez mais exíguo. O homem é resultado de uma interação complexa entre o programa genético contido no óvulo fecundado e o impacto que a experiência exerce sobre ele. Como disse o mestre Ernst Mayr, um dos grandes biólogos do século passado: "Não existe atividade, movimento ou comportamento que não seja influenciado por um programa genético".Considerar a orientação sexual mera questão de escolha do indivíduo é desconhecer a natureza humana.