sexta-feira, 18 de julho de 2008

Depressão na Menopausa

"As diferenças na prevalência dos transtornos do humor entre homens e mulheres têm se mostrado constantes entre as várias culturas. Os achados mostram duas a três vezes mais depressão maior e distimia entre mulheres (ROBINS et al,1984; KESSLER et al,1994). Por outro lado, o número de mulheres na menopausa vem crescendo com o aumento da expectativa de vida e a depressão é uma enfermidade psíquica comum em todas as fases da vida da mulher.Acresce que o mito de que há ainda maior risco de depressão na menopausa é arraigado na nossa sociedade. Assim, mais de 2/3 das mulheres temem apresentá-la, embora este temor não esteja associado à forma como elas virão a vivenciar o climatério. Os fatores psicossociais são os que têm sido mais associados à depressão e seriam: mudanças nos papéis familiares, eventos estressantes da vida, envelhecimento e perda do papel reprodutivo/feminilidade. Teriam também influência, as normas, os valores culturais e o quanto a mulher investe na valorização das alterações fisiológicas desse período (DENNERSTEIN, 1987; HUNTER, 1990; KAUFERT et al, 1992; KERR-CORRÊA et al, 1998). O "efeito dominó" (aparecimento dos sintomas físicos na perimenopausa levando as alterações do humor) de maneira isolada e de maneira generalizada não explicaria a depressão na menopausa, mas poderia ser significativa em mulheres vulneráveis (HUNTER, 1990; SCHMIDT & RUBINOW, 1991). O principal mecanismo fisiológico proposto para explicar a depressão no climatério até o momento seria o déficit de estrógenos.Por suas repercussões no SNC (ação estimuladora dos sistemas serotoninérgicos e adrenérgicos, facilitador da down-regulation dos receptores 5HT2, estimulante do fator de crescimento de neurônios), seria o fator mais relevante na fisiopatologia da depressão na menopausa (GENAZZANI[RTF bookmark start: Ref444588907 et al, 1999; SHERWIN et al, 1996; STAHL, 1996; JOFFE & COHEN, 1998)[RTF bookmark end: _Ref444588907].Por outro lado, um período prolongado de perimenopausa aumentaria moderadamente o risco para depressão, enquanto a perimenopausa em si [RTF bookmark start: -HIt441823088] aumentaria tal risco discretamente (AVIS et al, 1994) [RTF bookmark end: _HIt441823088]. Um episódio depressivo prévio, transtorno disfórico pré-menstrual e depressão puerperal também acrescentariam a esse risco (HUNTER, 1990; KAUFTER et al, 1992; PEARLSTEIN, 1995).A menopausa cirúrgica não estaria associada à depressão. Seria secundária a uma série de fatores, tal como: episódio depressivo prévio, uso nocivo/dependência de álcool, baixo nível educacional, alto nível de estresse psicológico prévio história de doença psiquiátrica e histerectomia precoce (AVIS et al, 1994; EVERSON et al, 1995).A Terapia de Reposição Hormonal (TRH) utilizada no tratamento dos sintomas da menopausa pode ser coadjuvante no tratamento da depressão na menopausa. Estudos comprovam a melhora dos sintomas vasomotores, do trofismo vaginal, da qualidade do sono, da libido, bem como a diminuição da osteoporose e da incidência de doenças cardiovasculares (IAM e AVC), além de provável efeito protetor contra a doença de Alzheimer, embora seja um tratamento não sem controvérsias.Assim, a TRH não estaria isenta de riscos (câncer de mama e endométrio e litíase biliar) (ROBB-NICHOLSON, 1997). A associação com progesterona poderia diminuir esses riscos mas, em contrapartida, haveria um possível efeito desestabilizador do humor contrapondo-se aos efeitos positivos dos estrógenos (REDDY, 1997; RUPPRECHT, 1997). O papel dos andrógenos ainda é pouco estudado, havendo indícios de uma correlação da dehidroepiandrosterona (DHEA) com bem-estar e humor (SKOLNICK, 1996; BARRETT-CONNOR et al, 1999) e um crescente interesse no estudo desse tipo de TRH.A melhora dos sintomas físicos melhoraria também a irritabilidade, a ansiedade e a libido. Quanto aos aspectos cognitivos, a TRH com estrógenos também parece trazer benefícios, embora mais estudos sejam necessários para que se comprovem essas observações.Com os avanços na compreensão da ação dos hormônios esteróides no SNC e suas relações no comportamento e transtornos do humor, principalmente nas mulheres, o psiquiatra deve estar atento para a possibilidade de incorporar a TRH ao arsenal terapêutico do tratamento dos transtornos do humor na mulher. Principalmente aquelas que, em sua história, apresentam dados que evidenciam sensibilidade às oscilações durante sua vida reprodutiva: transtorno disfórico prémenstrual, depressão puerperal e depressão induzida pelo uso de anticoncepcionais orais. Deve-se entretanto lembrar que as reações à TRH variam de mulher para mulher, portanto não podem ser padronizadas Mulheres sem história prévia de transtornos do humor, apresentando sintomas depressivos ou depressões leves/moderadas e com sintomas vasomotores poderiam ser tratadas somente com TRH. Depressões graves devem ser tratadas com antidepressivos (STAHL, 1998).Apesar dos poucos trabalhos publicados na área (na sua maioria estudos que utilizaram diferentes tipos de hormônios com dosagens não padronizadas, sem correlação dose/resposta, admitiram mulheres em diversas etapas da menopausa ou sem confirmação laboratorial da menopausa, foram não controlados e retrospectivos), há evidências de que a TRH teria propriedades antidepressivas e/ou aumentaria a eficácia dos antidepressivos. O potencial benéfico da TRH como coadjuvante no tratamento da depressão necessita mais estudos para que seja estabelecido, principalmente quanto ao papel dos hormônios andrógenos."

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